18:58

Do engodo, da Bulimia e do Prozac

Postado por Priscila Milanez |



É que todo engodo me desce oblíquo pela garganta. E eu finjo que digiro, apesar do enjôo. Nessas horas queria ser bulímica. Enfiar o dedo na goela e vomitar todas as mentiras que engulo em doses homeopáticas cotidianas. E, em caso de auto-engano, não há Prozac que dê jeito.

(imagem: Alyssa Monks).

21:14

Não é prosa, nem poesia

Postado por Priscila Milanez |


Ato ou Desato?
- isso não é prosa, tampouco poesia -
É, talvez, um quase desabafo
Um calar vazado
Um falar estancado

Ato ou Desato?
Para a resposta
Basta apenas um traço,
Um passo ou descompasso
Um ato ou (des)ato.

(crédito da imagem: 'silence' de Miguel Peres - olhares)

Recomenda-se, como um imperativo-quase-categórico, a prática exaustiva de exercícios de contenção diária: não faça, não sinta, não demonstre, não fale, não ligue, não revele, não sinta, não invente, nem tente, não faça nada diferente; “não, não e não” à quase tudo que se possa pensar ou querer que esteja fora dos padrões de uma racionalidade calculada e programada. Contenção é a palavra de ordem da atualidade: contenha seus medos, contenha sua ansiedade, contenha sua dor, seu pranto, contenha seus desejos, contenha suas demonstrações de afeto, sua alegria, sua fantasia... “Contenha/Contenha-se!” Tais práticas de contenção vigoram no receituário discursivo dos “especialistas” que insistem, patética e arrogantemente, em dizer quem e como eu, você e todo mundo deve ser e estar neste ou em outro mundo qualquer. Pedagogos de uma existência vazia e frívola! Criam manuais práticos de (sobre)vivência comedida, no qual se ensina o que e como se deve falar, amar, agir, sentir, vestir, querer, gozar, etc., enfim, como se deve constituir a si mesmo. Eles arrogam ter antídotos prontos para quase tudo: tédio, euforia, preguiça, ciúme, tristeza, dor, desamor, desalento, até para felicidade, se considerada em excesso. E vão empurrando goela abaixo pílulas verdes, amarelas, azuis, vermelhas como promessas de satisfação plena e garantida. É felicidade encapsulada, auto-estima em gotas, serenidade tópica, etc.

Para a garantia e manutenção plena de bons resultados, aliada a prática dos exercícios de contenção diária recomendada acima, prescreve-se, ainda, uma tal dieta sentimental: ‘evite os excessos; alimentar-se de afeto, desejo, paixão, vontade, volúpia, desvario, apenas quando inevitável for e em pequeníssimas doses.’ Isso quando não exigem restrição absoluta de alguns desses vitais elementos. É o imperativo da parcimônia.

Por todos os cantos vejo o mundo me exigindo essa tal parcimônia. E eu não sei o que fazer com isso. Contenha sua fome, seja de comida, seja de vida; contenha sua sede, seja de água, seja êxtase. Mas eu não sei, nem gosto de ser comedida. Eu nunca consegui efetivar uma dieta que fosse. Muito menos, me dedicar a prática constante de exercícios. Sou sedentária e gulosa. Quando eu quero, quero muito, me lambuzo, uso e abuso. Gula, pra mim, não inclui apenas o que com os dentes trituro. Com minha gula não só sacio os vazios do estômago, mas apaziguo os excessos da alma. Até que ela sinalize para mim que está plenamente farta. E sem culpa nenhuma a pesar na balança depois.

Meu ministério interior em prol da auto-sanidade e realização adverte: moderação em excesso extrai o sabor das coisas. E, conseqüentemente, pode provocar falta de apetite, anemia, inanição, tristeza, afasia, etc. E a prática constante de exercícios de contenção pode atrofiar a mente e comprometer o compasso dos batimentos cardíacos – que do meu coração, pelo menos, batem em outra cadência.

09:15

Deságuo

Postado por Priscila Milanez |


Há tempo não me sinto assim, branda e inteiramente apaziguada em mim. E isso me é estranho. Me estranho. É que sempre transbordo. E quando não, estou sempre à beira, por um fio, por um triz... Um toque, sutil que seja, e me derramo completa e absorta. Transbordo plena por entre os acordes que tocam meus ouvidos, entre as pausas que cadenciam o ritmo de um poema, ou entre dedos que rodopiam numa ciranda sobre meu corpo. Vivo o eterno risco do contato. Seja ele táctil, sonoro, do olhar... Se toca, transbordo. Em alegria ou angústia, em dor ou prazer, em vontade ou medo. Vivo à desaguar em euforia ou pranto, em riso ou lamento. Transbordo. Escorro. Derramo. Escôo.

É que não caibo em mim. E quase nunca fui capaz de manipular com destreza tamanha intensidade que faz de mim esse cálculo mal equacionado e inacabado de excessos e ausências. Intensidade que possui o calor do gelo que queima e é tão fluida que se dilui tornando vã qualquer tentativa de conte-la por entre as mãos. É que sou toda flor e pele. Se toca, transbordo.Escorro. Derramo. Escôo. Deságuo.



(imagem: Alyssa Monks - parece foto, mas não é).

Postado por Priscila Milanez |


Em tempos de fluidez,
se está sempre à deriva.




(créditos da imagem: Maria flores e José Almeida - olhares.com)

Postado por Priscila Milanez |


Escrevo porque o tempo é denso.
E eu não aguento.


(crédito da foto: GDFotografias - olhares.com)

22:27

"Bom dia"

Postado por Priscila Milanez |

Acordou cedo com um agro sabor na boca e um ar de sobriedade encardida nos olhos. Abriu a janela que dava pra aquele cenário cinza e aturdido da cidade e ensaiou baixinho, com um sorriso amarelo impresso na cara, um “bom dia, dia”... Tentou pela segunda vez, ainda tímida, mas um pouco mais alto. Então percebeu o quanto podia ser patética. Lembrou do argumento daquela moça gorda que passava pelos corredores da empresa onde trabalhava, sempre sorrindo, absoluta e resignadamente feliz. A tal moça lhe dissera que todos os dias ao se levantar da cama, abria a janela e pronunciava um sonoro “bom dia ao dia”. Ela achou esquisito, meio absurdamente cômico e tolo, mas aquela manhã parecia prenunciar um dia tão oco de possibilidades e repleto de enfado, que ela resolveu tentar. Então, tentou... E ao concluir a frase, riu um riso acre, satirizando a tamanha estupidez a que tinha se prestado voluntariamente naquela manhã tão cinza quanto a cidade.

O que ela queria não era aquela felicidade efusiva da moça gorda dos corredores, que devia agradecer todos os dias pela possibilidade quase inefável de trabalhar naquela grande empresa de merda, que lhe pagava um altíssimo salário só para que carregasse resoluta e burocraticamente de um lado pro outro pilhas e pilhas de papel a serem carimbados, salário com que pagava, entre muitas coisas, os imensos baldes de pipoca e litros de coca-cola que devorava enquanto assistia um filme besta qualquer no cinemark e as drenagens linfáticas posteriores pra ajudá-la a se livrar das gordurinhas cinematográficas estancadas em seus míseros 1.56 de altura e imbecilidade contente e saturada.

O que ela queria nem era felicidade, muito menos essa que via estampada no riso efusivo daquela moça. Felicidade - ela já sabia - é mero produto de uma mente criativa, é coisa que se inventa. Tal qual amor na música do Cazuza... pra se distrair. O que ela queria estava bem além do que se convencionou chamar felicidade. O que ela queria era leveza. Leveza nos atos, nos passos, nos seus próprios compassos e até nos descompassos.

Dar “bom dia ao dia”, além de ridículo, soava como pedido de licença pra viver. E não se pode pedir licença pra viver. Quando se é muito comedido com a vida ela te dá uma bela duma rasteira e você cai estabanado de bunda no chão. Não se pede licença pra viver, se vive.

Mais do que patético aquele era um ato de absoluto desespero - ou desesperança, nem sabia ao certo definir qual deles lhe caberia melhor. Mas era um desespero apaziguado. Daqueles que só se fazem sentir mediante atos de estupidez aguda. Como dar “bom dia ao dia”. Ou ainda, como aqueles rituais extraídos de manual de auto-ajuda: “10 passos pra se tornar uma pessoa mais feliz” e panaca.

A única conclusão a que pôde chegar era a de que ninguém, por contingência nenhuma, deveria ser impelido a se desvencilhar dos lençóis antes das 9 horas da manhã. Cérebro nenhum pode funcionar em plena potência antes das 9. Daí, os atos de imbecilidade matutina como dar "bom dia ao dia".

(Quando chegou ao trabalho deu de cara com a moça gorda sorridente. "E então, deu um belo bom dia ao dia hoje?"..."Sim, claro, e ele mandou você largar de ser otária".)

23:25

Ar e caos, suas possíveis derivações

Postado por Priscila Milanez |


Caótica. Era assim que ela era. Dizem que são coisas do signo... Aquilo de que todo mundo fala... Mas a maioria nem sabe ao certo definir. E ela nem acreditava nessas coisas, oras! Embora, vez ou outra, ia lá consultar no oráculo contemporâneo virtual se o tal signo dela combinava com o signo dele...“Besteira”, dizia ela com um risinho frouxo no canto da boca, debochando de suas patéticas ações e contradições. Descobriu, tardiamente talvez, como é bom rir de si mesma. “É mera curiosidade” – afirmava resoluta sempre que questionavam o argumento infundado de sua suposta incredulidade, que equacionada com curiosidade, ela definia como uma “incredulidade curiosa”. Além do que, guardadas devidas ressalvas, ela até achava bonito essas coisas de astrologia: tem haver com estrelas, lua, sol, terra, água, maré, não é? Se não era verdade, se podia fazer poético, pelo menos, dependendo do olhar de quem vê e sabe extrair beleza ou um quê de tristeza das coisas todas.


Sabia-se ar. E mais do que saber, sentia-se ar. Nada mais fluido e disperso poderia defini-la tão bem. Nem a água, porque água se molda num copo ou balde. Até por entre os dedos podem ficar algumas pequenas e transparentes gotículas. Ar não...Ar não se retém facilmente. Ar se esvai... E ela, assim como o ar, sempre se esvaía sorrateira como brisa que adentra discreta e sutil frestas, portas e janelas ou desastrada como vento impetuoso que desestabiliza voraz a ordem material das coisas outrora devidamente acomodas em seus devidos lugares. Ar até se comprime, de fato. Mas a compressão não se dá assim de forma gratuita como água a formar poça na beira da praia. E além do mais, sempre se tem um jeito de extravasar, nem que seja numa súbita explosão.


Sabia também que ar alimenta o fogo. Gostava dessa associação. Deveria ser explosiva, não? Pelo menos, quente, ardente... Sabe-se lá... E em algumas tentativas até foi – parcialmente, digamos. Quanto maior a intensidade do vento, maior o calor da entrega. Assim pensava que deveria ser. Mas nem sempre era. Será que o vento era intenso demais que apagava o fogo? Nada... É que aquele fogo não passava de fagulha. Nem queimava, nem ardia. Ela até quis que queimasse e ardesse. Mas não estava disposta a soprar, soprar, soprar... Ar alimenta fogo, mas fogo tem que querer queimar.


A estabilidade da terra lhe parecia tediosa demais. Tudo que soasse estável em excesso lhe transmitia uma serenidade contingente. Como se estabilidade em demasia se transmutasse em infertilidade. A estagnação do mesmo e sempre empobrece o solo, tornando-o infértil para novas idéias, novas possibilidades, para novas cores, sabores, odores, para outras maneiras de experimentar, de ser e estar no mundo. Ou nos outros tantos mundos possíveis. Já que, as vezes, meio cambaleante entre a fé e a descrença, como deveria ser a esperança de alguém rarefeita como o ar, ainda acreditava na tônica da expressão: “outro mundo é possível”. Mas, só às vezes. Ela, que não sabia ser apenas e sempre uma, ela que quando criança imaginava que cada cidade era um pequeno planeta, não podia se fixar à terra sob a pena da estabilidade tediosa da rotina, do espaço definido e contido do sempre e mesmo.


Disseram-lhe certa vez que ela parecia ser filha das águas. Ela que tem uma sede inesgotável de água e vida, sabia o quanto essa afirmação fazia sentido ao tocar de forma sutil e quase poética seus tímpanos. Ar e água formam nuvem. É quando o ar úmido se eleva na atmosfera e se arrefece. Combinação bonita, não é? Gostava da possibilidade do ar que se eleva e toca o céu e é também céu, e colore o céu como borrões de tinta branca a colorir uma folha de papel azul royal. Mas tal combinação pode ser intempestiva, já que nuvem que se forma em contornos indefinidos, ou definidos apenas por nossos devaneios mais lúdicos, pode cair líquida e densa, como aquelas tempestades que impossibilitam uma caminhada despretensiosa na beira da praia no fim de uma tarde qualquer de sábado. Quando tal tarde de sábado soa como um prenúncio tão agudo para o nada, que nada mais faz sentido, senão essa tola e, talvez necessária, caminhada. Logo, a imagem poética do ar fundindo-se a água a formar nuvem pode dar lugar aquelas a chuvas torrenciais que vêm molhar o peito de melancolia ou angústia, de uma preguiça inócua ou de uma saudade aguda.


Ar como era, conjugada com esses elementos todos, fazia dela esse emaranhado de possibilidades, contradições, despautérios, refrigérios... Ela era assim: ar. E ar é o caos rarefeito.

19:12

Inteira e Irremediavelmente Reticente

Postado por Priscila Milanez |

De um tempo pra cá, tenho detestado reticências. Logo eu que sou inteira e irremediavelmente reticente... Subterfúgio de quem se expande, expande... até não mais caber em si. Eu que tanto as aprecio e com a destreza de quem não sabe quando e como colocar fim às coisas, a elas sempre recorro para deixá-las em suspensão... Logo eu...


Tenho detestado as reticências entre o encontro e o vazio interposto em horas inquietas até o próximo encontro. As reticências que se interpõem entre um olhar esquivo e o outro interrogativo. Tenho detestado as reticências entre uma palavra e a próxima palavra que insiste em ficar estanque na ponta sedenta da língua e fica. A mesma língua com que me beija afoito fazendo saltar da tua boca outras tantas reticências em profusão. As reticências que se formam por entre os dedos das minhas e das tuas mãos quando se enlaçam sutilmente curiosas... As reticências entre meu corpo e o teu corpo quando nos entregamos a uma dança cadenciada apenas pelas pulsações do desejo manifesto e liberto. E depois, quando já saciados de êxtase e volúpia, nos entregamos ao sono - que nem sempre vem. Tenho detestado as reticências todas que pairam no ar, confusas e dispersas, quando ao dizer ‘até logo’ fecho a porta, depois de tê-la aberto pra você entrar e permanecer.

Caberia aqui um ponto concludente, não caberia? Talvez. Porém, eu não ouso recorrer ao ponto final, ao menos por enquanto. Não gosto da imponência das grandes conclusões que não deixariam em aberto o que poderia vir a ser... Deixo espaço para as objeções nas entrelinhas ou entre um ponto e outro daqueles três que compõem uma reticência. É que eu sou assim mesmo: inteira e irremediavelmente reticente. Devo reafirmar:


Tenho detestado essas reticências todas que incansavelmente se multiplicam em milhares entre mim e você.

10:44

Pra dizer não

Postado por Priscila Milanez |

Quantas vezes mais te direi o não, ora ruidoso, ora sutil que tantas vezes da minha boca você já ouviu? Não, eu não entendo a medida inexata dessa tua vontade por mim, de mim... esse teu desejo por minha boca, por minha pele na tua, pelo meu corpo inteiro em atrito ao teu. Não, de fato, não compreendo a medida exata de teu querer, do teu desejo aprisionado. E não me venha com respostas fáceis, eu não entendo respostas fáceis. Obviedades pra mim não tem senso, nem razão. Soam vazias e frívolas. Ou você justifica com ardor teu querer ou terá apenas a indiferença. Ou apenas o carinho que por você sempre nutri e nada mais. E, eu sei, o carinho que te tenho não cabe na esfera do teu desejo, não satisfaz tua vontade de me ter inteira.


Eu poderia te dizer sim e te experimentar como quem prova de um fruto exótico para descobrir o sabor incógnito. Mas eu não sei me lançar sem ardor. Eu só me jogo impulsionada por sentimentos que são maiores que minha possibilidade de compreensão e não por mera curiosidade. Curiosidade não me atiça suficientemente a vontade. A menos que fosse conjugada com desejo. Sem ele, o fruto se desmancharia insosso na ponta da língua e frustraria meu paladar. E eu não me disponho a frustrações que não sejam consequência de sentimentos desmedidos e incontidos. Estes que não cabem em medidas exatas são os que me impulsionam a saltar sem os aparatos necessários a prevenção dos danos irremediáveis de um salto que pode transmutar-se numa possível queda e, da queda, em dor. O que sinto por você não está entre eles, tem comprimento, largura, espessura, peso... enfim, parâmetros bem delimitados. Dimensões mensuráveis demais para que eu pulse em desejo por você como você pulsa por mim.


Então, não represa esse desejo no peito, rapaz. Represar é pior que naufragar. E eu não te quero provocar asfixia.

Postado por Priscila Milanez |

Era um sábado chuvoso e insosso. Era um daqueles raros dias em que convite nenhum a tiraria da frente da TV, que passava um programa imbecil de auditório qualquer: era dia de consumir doses de imbecilidade saturada - sem a culpa a pesar na balança do intelecto depois – e rir da estúpida capacidade humana de beirar ao ridículo sem se dar conta disso e, ainda, achar bonito. Resolveu pintar as unhas de vermelho enquanto se deliciava com a estupidez de seus compatriotas. Dirigiu-se ao quarto que, em sua desordem, acomodava seus badulaques multicoloridos e depois de esbarrar em alguns deles no pequeno trajeto entre a porta e a gaveta, achou o esmalte... Voltou pra frente da TV, e enquanto ria desolada da estupidez escancarada da nação, borrava as unhas de rubra cor. Antes de terminar de limpar os borrões pelas beiradas das unhas, olhou-as e não se reconheceu: “essas unhas vermelhas... não sou eu”. E daí? - pensou. Naquela tarde insossa, à frente daquele programa estúpido, nada mais consoante: se permitir não ser.

22:12

"Quero"

Postado por Priscila Milanez |

Sim, quero tudo isso. Tal qual diz a canção na voz da Elis. Quero tudo isso e quero além. Algo que ainda não tem definição precisa, não tem nomenclatura em que caiba. Ou se tem, desconheço. Se sei, resigno-me em não dizer, ainda. Desejo incógnito que só tem lugar no encontro daquele olhar... Aquele olhar que escrutina, que interroga, que busca e, que antes mesmo de saber, sente. Porque sentir importa mais do que saber. E é por isso que não me rendo às linhas retas e bem traçadas da ciência, do método, do saber, do academicismo erudito e barato dos ‘sábios’. Prefiro as linhas tortas do sentir. Sentir é não saber. E eu prefiro assim. Por isso deixo incógnito o que nem sei ainda se cabe aqui. E, talvez, nem deva caber: medidas exatas é que não me cabem.

Visto as “asas do desejo” e sigo as linhas tortas do sentir que direcionam meu olhar aquele outro olhar. Sim, eu quero sim. E quero além. Só não sei definir, porque prefiro sentir.

Postado por Priscila Milanez |

Repousa teus olhos macios nos meus, que são ácidos como meu peito. E me diz que tudo vai ficar bem, meu bem...Se te faço uma rima pobre aqui é porque no que te peço agora só ela cabe. E inteirinha. Me diz de todas as cores desses olhos teus e, com elas, eu te faço uma aquarela sobre meu corpo inteiro.

15:19

Dia morno

Postado por Priscila Milanez |

Asfixia: um misto de saudade, vontade, falta, cansaço, emaranhando-se como fios a formar um nó cego no peito. Em dias assim só me resta a acre sensação de que pouco - muito pouco - resta a ser dito. E nas lacunas desse silêncio ergo muros, crio trilhas, tento atalhos, mas nunca descubro, de fato, onde ficam as portas de entrada e saída. São dias-labirinto. Piso sobre as reticências que se formam sob meus pés aflitos e são elas que sustentam o edifício de uma vida inteira.

Hoje, ergui outros edifícios habitáveis onde repousar a alma em alento, sono e calma, mesmo em dias claustrofóbicos assim. Há muito desisti de tentar, impaciente e desastrosamente, encaixar os fragmentos que fazem de mim essa composição imperfeita de lacunas e excessos. Nem me importo com tais: antes a dissonância da assimetria, do que a monotonia previsível da perfeição.

A coleção de perguntas sem respostas, que acumulei na caixa cinza das incertezas, joguei fora, junto com um punhado de cálculos inacabados e mal equacionados das minhas velhas angústias. Há muito já não me interessam também.
Entorpeci as retinas pra não me doer a alma. Obstruí o caminho dos olhos ao peito para não morrer de desalento e afasia em meio a aridez do caos. Só desobstruo para a passagem do que me convém para suprir minha necessidade diária de alento, de êxtase e leveza.

Hoje é um dia morno. E em dias mornos assim, me sobra saudade, vontade, falta, cansaço. E eu carrego tudo isso num balaio, e, carrego sozinha. Não me pesam tanto mais. O poeta dizia que “de tudo fica um pouco”, pra mim, já tá sobrando demais.

09:03

Ponto

Postado por Priscila Milanez |

Para começar sem equívocos deveríamos ter começado pelo ponto. Se de exclamação, final ou de interrogação é a questão. Ainda que não me julgue apta a ela responder, arrisco-me a dizer que, talvez, diante das circunstâncias e dos sinais de instabilidade contínua, o de interrogação é o que melhor nos cabe. Pensando bem, arrisco-me a dizer que todas as relações deveriam começar por ele. Ele traça certo grau de indefinição que deveria ser admitida em todas elas. Quanto menos definições, menores seriam as reações adversas.

Se a gente coloca uma vírgula, um ponto-e-vírgula ou dois pontos onde deveríamos ter colocado, respectivamente, uma exclamação, um ponto final ou, ainda, reticências, a gente desconfigura completamente o jogo das possibilidades fortuitas e estragamos o que poderia ter dado certo. A vírgula pode ser um mero anseio de silêncio passageiro - aquele que a gente carece para se reconhecer sem o filtro do olhar do outro. O ponto-e-vírgula, um dia inteiro imerso nesse silêncio, quando ele se faz agudo e imperativo. Já o sinal dois pontos suspende o silêncio e exige fala, revela que ainda há o que ser explicado, dito, redito, reafirmado. Exclamação induz a expectativas em profusão. E, a gente sabe: expectativa e frustração formam uma equação matemática perigosa, composta por elementos diretamente proporcionais. Ponto final pode soar como pretensão de final feliz, que não comporta os equívocos e desencantos do trajeto. Ou, ainda, decreto de relação que começa com data previa de expiração, tal qual contrato de aluguel. As reticências são amplas demais, abrem espaço para múltiplas interpretações de onde podem emergir equívocos e desencontros. Exigem cautela, e se a gente tropeça na dubiedade contida nelas corremos o risco de antecipar o fim que não almejamos.

Por isso, acho que começar pelo ponto de interrogação pode ser o caminho mais justo e sincero para ambos. Pra mim e pra você. Ele questiona, mas não faz da resposta uma necessidade imperativa. Admite qualquer uma delas ou nenhuma. Comporta a dúvida serenamente. E, para nós, o que resta além da dúvida? Para mim ela se impõe como um vão. E não me importo em ter que atravessá-lo usando as frágeis cordas do silêncio interrogativo que não exige resposta.

18:56

Silêncio reticente

Postado por Priscila Milanez |

O meu silêncio reticente não me calava. Era como se através dele me saltasse da boca mil palavras dúbias, não consentidas. Não, nenhuma palavra pronunciada, mas a reticência intensa e densa do meu silêncio revelou-lhe o despautério imenso do querer que naquele instante em mim pulsava. Adentrava o reino do encantamento e do medo como quem atravessa os portais do novo e incógnito. E isso me deixava sem ar, a tremer de leve - como tremulam as águas de um rio ao tocar do vento sobre sua superfície - minhas mãos inquietas que pareciam por elas mesmas transbordar dizeres difusos.

A inquietude do corpo tomava pra si a inquietude da alma, uma tentando apaziguar o descontrole – quase sereno – da outra. Parecia um querer infindo. Infindo pela impossibilidade de se tornar real. Denso e atravessado por sentires que se deslocavam repentinamente do peito para as mãos, das mãos para todo o corpo.

O que fazer dessas mãos que no meu silêncio, pareciam revogar pra si o direito de dizer por mim o que eu nem sequer sabia definir? Eu lhe disse tanto através da inquietude daquelas mãos... Eu lhe disse, em silêncio, com todas possíveis reticências...eu o queria. Sim, eu te quis.

06:28

Desato

Postado por Priscila Milanez |

Ao girar a maçaneta da porta ela desatou o nó do desejo para tê-lo sem reservas e por inteiro. Mas entre eles havia um vão de memórias, ausências e presenças estanques que não permitia a entrega. Começou, então, um jogo exaustivo: o ‘talvez’, o ‘depois’, o ‘amanhã’, ‘outro dia’, configuravam-se como peças de um jogo que ela não estava disposta a jogar. Nem para ganhar e, tampouco, para perder. E não cabiam na sua urgência. Era tempo em demasia a se perder na ampulheta das horas inquietas. E ela sabia: não valia a pena. Só valeria se o querer de ambos não soasse em descompasso de pêndulos e vontades. Só valeria se vibrassem na mesma intensidade como as cordas de um instrumento que vibram em harmonia para compor um novo acorde. Não vibravam. Ela até tentou, insistiu, mas a vontade esvaiu com a paciência, como areia se esgota na ampulheta.

Então, atou o nó. E, para ele, fechou a porta.

13:49

Império do Fracasso

Postado por Priscila Milanez |

“Os amores são como impérios”, já dizia Kundera. Eu não sei de que se compõem seus alicerces. Só sei que não são de concreto. Mas de estruturas frágeis, tais quais badulaques de porcelana que se estilhaçam ao mínino tanger do menor desencanto. São fluidos como as águas de um rio que corre apressado por entre as margens estreitas do desejo e assoreadas pelo desapego. São inconstantes como o verão que atrái com seu excesso de calor as importunas chuvas torrenciais da efemeridade. Se amores são como impérios, os nossos estão fadados ao fracasso desde o alicerce.

18:15

...

Postado por Priscila Milanez |

E dancei na cadência daquele reencontro, na harmonia do querer mútuo. E senti em brasas vivas o amor que havia de queimar...Mal se fez faísca e virou cinza.

19:47

Liquidez

Postado por Priscila Milanez |

Cá estou, com tua ausência fazendo latejar essa estranha sensação de que podia ter dado certo, não fosse sua pretensa e equívoca pressa de viver, que esgota tudo tão rápido (tá... vai lá, equívoca pra mim, talvez não pra você. Sim, relativismos...). Vai com sede ao pote e derrama tudo no chão antes de provar a intensidade do que está contido nele, como um menino estabanado que tropeça sobre os próprios passos ou escorrega no piso molhado, esbarra nos outros, machuca e nem pede desculpa. Levanta e sái correndo com a mesma pressa para matar a sede em outro pote. Dessa vez, tão vazio, mas que te satisfaz – é a lei da similaridade. É tudo estupidamente líquido mesmo. Porque assim você quer. A gente toma o líquido amargo se quiser. A gente pode congelar e esperar que ele vire outra coisa que não escorregue pelos dedos assim tão fácil. Sim, a gente congela se quiser. E do líquido faz o que refresca a boca, olhos, tudo mais e a vida. Não, você quis em estado líquido mesmo, provou e nem sentiu o gosto. Assim é quando a gente toma tudo com pressa. E deglutimos todas as possibilidades antes de torna-las possíveis.

15:50

Adaptação

Postado por Priscila Milanez |

Era um exercício de adaptação contínua ao mesmo sempre velho conhecido. Entrava naquele coletivo pelo menos duas vezes ao dia, quase todos os dias. Passava pelas mesmas avenidas de pedra e pouca poesia. Com exceção do penedo às 6 da manhã, no horário de verão, que tem as cores do sol que mal acorda por trás das pedras e banha as águas trêmulas do porto com sua luz preguiçosa de mais um dia, restava ao longo do trajeto pouca poesia mesmo.

Para não petrificar um olhar de tédio nas retinas, olhava para além das janelas embaçadas como quem por ali passava e pousava os olhos pela primeira vez. Assim, acabava sempre descobrindo nova janela, escada, porta, sacada, varanda, calçada, parede, grade, pedra, cor ou fachada, compondo as estruturas de uma casa, um prédio, loja, muro, hotel, padaria ou pousada...

Nesse exercício contínuo de estranhamento ao mesmo sempre novo, fixava o olhar em 40 quilômetros por hora – um pouco mais ou um pouco menos dependendo do fluxo dos automóveis que partilhavam a mesma avenida - numa janela de madeira pintada de vermelho de um prédio antigo. Esta janela vermelha e grande de um apartamento no último andar de um prédio de quatro andares, em múltiplas perspectivas diárias, lhe lançava sempre a curiosidade sobre quem morava ali. Uma janela tão imponente e dissonante das demais em um prédio de estruturas tão provincianas, só poderia abrigar alguém tão dissonante naquele espaço quanto aquela janela. Nunca a viu deixar passar - a não ser por pequenas frestas - a luz de manhãs mornas ou frias, de dias cálidos ou amenos. Ela permanecia sempre fechada. Passada a janela em perspectiva, passava a curiosidade. E tornava o olhar teimoso à pretensão do sempre novo.

Esse exercício de readaptação do olhar era uma tentativa de não torna-lo turvo e opaco pelas contingências cotidianas da mesma velha cidade habitada já há alguns anos. Assim, ainda se mantinha presa a uma pequena dose de encanto diário, tal qual remédio controlado contra o tédio. Era tudo uma questão de perspectiva. Uma tentativa de se fazer caber ali. Era um apaziguar constante do corpo ao espaço, da alma ao condicionamento cotidiano do mesmo.

E assim, prosseguia, desobstruindo seus caminhos cotidianos dos pedregulhos do tédio, lavando os resquícios da mesmice das retinas, criando e recriando a possibilidade de descoberta de novas janelas, vermelhas ou amarelas.

17:20

Dança das Horas

Postado por Priscila Milanez |

No badalar imaginário dos relógios, que hoje já não têm mais a imponência sonora cadenciada dos pêndulos, ela contava o tempo. Somava os dias e marcava a cada volta completa de seus ponteiros quanto tempo havia se passado desde cada uma de suas escolhas – possivelmente – erradas. Então, olhava pra um lado, pro outro, pra traz, e num jogo estanque de cálculos dúbios tentava equacionar de que maneira os ‘nãos’ e ‘sins’ que pronunciou ao longo do tempo (para os outros, para algumas circunstâncias e, sobretudo, pra si mesma) configuraram os rumos que delineou com seus passos no chão e pela vida, até então. Questionava a não possibilidade de se voltar atrás e requerer o direito de tentar mais uma vez, de uma outra maneira, de uma nova forma, de uma nova cor, um outro sabor... Talvez, um conserto aqui, um recorte ali, um ajuste, um rejunte... tiraria algo daqui, colocaria lá, trocaria algo por outro, um novo, ou por nenhum... jogaria alguns pela janela, pintaria com outros tons as velhas telas, e borraria de tinta o que extrapolava as bordas de cada uma delas...Limparia aqui e acolá... Não se tratava de arrumar tanto a bagunça acumulada ao longo dos dias, meses, anos, se tratava apenas de colocar nos, outrora, devidos lugares as coisas que no passado, por uma questão de perspectiva turva ou imbecil mesmo, ela dispôs de outra maneira... Mas não, não podia...

Restava-lhe apenas a tentativa de evitar o descompasso dos dias ritmados pelos pêndulos que insistiam naquela dança monótona e insossa das horas. A cadência irritante da exatidão marcada por aquele metrômero burocrata, insanamente regido pela arbitrariedade do que se convencionou chamar: tempo.




(crédito da foto: GTFotografias - olhares.com)

00:26

Meio à flor da pele e outros ares

Postado por Priscila Milanez |

Ando com vontade de sentir cheiro de casa. Cansei de apartamentos em suas estruturas rijas e rudes - tais quais parecem ser as estruturas daqueles que, passivelmente, neles habitam. Quero espaço que cheire a vida e movimento. Frescor de manhãs úmidas pelo vento que só às casas adentram. Réstia de sol atravessando insolente a janela. Cheiro de terra quando chove. Cheiro de alecrim, sálvia,manjerona brotando em xaxins no parapeito da janela.


Aqui, por entre paredes brancas, tudo cheira a concreto. Do lado de lá, mais concreto. Onde pulsa vida por detrás dessas paredes?


Ando meio à flor da pele - não tanto como aquela música diz. Mas, é que hoje tudo cheira a desalento. A flor da minha pele quero tocada por outros ares.

19:02

A esterilidade da tua razão rasa

Postado por Priscila Milanez |

E ele lhe perguntara por que há tanto tempo não escrevia. Naquele instante não achou resposta. Tempo depois, percebeu o motivo:

- Era por uma questão de superfície, meu caro. Não, o que eu sentia por você não era raso. Raso era você; você em sua razoabilidade infundada. Você em sua equívoca ‘noção’ de amor, alicerçada na inconsistência da razão. Da tua razão rasa. Ressalto: poucas coisas podem ser tão rasas quanto a razão transportada para a esfera do sentir, do desejo, do querer.Estes não são passíveis de mensuração possível e quando assim são apreendidos e ‘supostamente’ vividos – pelos apologistas da racionalidade - nunca alcançam profundidade, pois esbarram sempre na superfície-limite das palavras, do que pode ser definido, medido, mensurado. Amor aí não cabe. O sentir, o querer, o desejar, meu caro, não se submetem a pesos e medidas.

E eu me recuso a aceitar essa forma/fôrma rasa de amar. Amor raso. Essa tua noção aprisionada que não te deixa reconhecer que o amor pode ter outras configurações possíveis que não àquelas de uma paixão extasiante e asfixiante. E te faz buscar no novo - tal qual se faz com fita métrica e balança – os parâmetros mensuráveis do passado.
Fique você com sua racionalidade estéril. Eu quero mais a possibilidade do amor que não se engessa, que não se petrifica em formas/fôrmas, que não se limita e não se repete. Quero amor novo, que extravasa superfícies, que não se estanca na mensuração estéril da razão. Da tua razão rasa. Amor aí não cabe, menino tolo.

12:58

Ares de sobriedade

Postado por Priscila Milanez |

Acordou cedo aquele dia - como há tempo não fazia - sem que nenhuma contingência das circunstâncias ou da rotina a impusessem o desvencilhar melindroso do sono e dos lençóis que vagamente a cobriam, naquele horário em que o sol ainda não aquece e, timidamente, se mostra e reflete seus raios esparsos nas águas do porto.

Acordou tomada levemente por uma ânsia de se manter sóbria ao longo de todo aquele dia que, por antecipação, lhe parecia de todo vazio e de uma densidade insossa. Levantou vagarosa da cama e dirigiu-se a cozinha pra fazer um chá de cidreira, numa tentativa esquiva de manter tais ares de sobriedade, acalentando o peito e aquecendo a voz, que nunca sabia o que dizer quando ressoava, alta e irredutível, a sensação de que pouco restava a ser dito.

Voltou pro quarto com sua paliativa dose de sobriedade nas mãos, a formar aroma em espirais mornas, compondo pequenas gotículas nas bordas da xícara ao contato do ar úmido alojado por entre as paredes, o piso e o teto daquele cômodo mal arquitetado, mas providencial. Tomou o ‘jogo da amarelinha' nas mãos e pôs-se a ler, numa tentativa de, talvez, alcançar o céu, que através da vida fora dos livros ou dos riscos limítrofes de giz branco traçados no chão lhe parecia impossível chegar.
...

Três dias depois se cansou das tais tentativas de apaziguar-se tomando chá e lendo Cortázar, acendeu um cigarro e tomou café. A falsa sobriedade transmitida pela fumaça do cigarro lhe parecia menos fingida do que a contida naquele chá.

21:18

Des-compasso passo

Postado por Priscila Milanez |

Ando a passos trocados, equívocos no tempo e no espaço - tanto na chegada, quanto na partida.Canso a todo instante da cadência inexata desse descompassado passo.
Piso em falso e caio num laço. Em giro acrobático, dele me desvencilho - no primeiro, segundo ou terceiro ato: desato.
Hesito... E, depois das reticências - ou dos vãos arquiteturais consignados que elas edificam - prossigo.
Eu passo e descompasso... no tempo e no espaço.

19:14

O silêncio pra depois

Postado por Priscila Milanez |

É muito cedo para o silêncio que entre nós se abre em lacunas dispersas e imponentes. Sobre teu peito me deito pra sugar as palavras que não me dizes. Não tente me convencer de que só fala pouco. Esse discurso de palavras comedidas não te cái tão bem quanto aos orientais. E deixemos o orientalismo pra depois.

Não se engane, também não gosto de verborragias intempestivas. Sei apreciar o silêncio. Mas quando ele não soa como um acorde composto de notas dissonantes entre mim e ti. Este teu silêncio faz um estrondo aqui dentro...e ressoa alto ao tanger as paredes daquele teu quarto, daquela tua casa.

Há silêncios que me encantam, outros amedrontam. Encanta-me aquele silêncio que só cabe numa relação quando esta alcança o compasso quase perfeito do querer e do bastar-se cada um a si mesmo e, ao mesmo tempo, um ao outro. Um silêncio que expressa a quase perfeição não existente.

Deixemos o silêncio pra depois. Quando tudo estiver tão claro que reluza através da flor de lótus daquela tua janela, daquele teu quarto, daquela tua casa. Aqui no meu é tudo denso, escuro e úmido demais. Mal vejo estes teus olhos que insistes em manter cerrados.

09:29

...

Postado por Priscila Milanez |

Fluida e esquiva como o vôo desgovernado e lento de uma pena que parece riscar o vento em múltiplos giros acrobáticos de contornos indefinidos.
Densa e intensa.
Tem o peso da gravidade que puxa a pena ao chão.

20:00

Assepsia

Postado por Priscila Milanez |

Gostava daquele cheiro asséptico de desinfetante que subia às narinas e tomava toda a casa, infestando-se sorrateiro através das frestas das portas e janelas. Tudo que era demasiadamente asséptico lhe transmitia ares de sobriedade na medida exata. Para ser sóbrio deveria ser excessivamente asséptico. Mas lhe faltava sobriedade nos atos.

Gostava de espaços frugais: era a parcimônia dos espaços concretos e triviais versus os excessos da alma. Mas teus próprios espaços – aqueles que habitava cotidianamente, por vontade ou contingência - eram carregados de aleatórios objetos dispersos, sem destino ou razão.

Equilibrava o excesso de assepsia e a candura das paredes brancas com o colorido de bibelôs inúteis, baratos e com certa graça: alguns que ganhava de amigos, outros que ela mesma fazia em dias em que resolvia criar e recriar formas de burlar o mais absoluto tédio em que submergia por sua própria conta e risco. Naqueles dias em que qualquer forma de contato lhe parecia potencialmente mais arriscada que qualquer forma de inapetência.

E, assim, ia amontoando junto a seus badulaques, ininterruptamente, papéis com frases não concluídas, recortes de revistas, miçangas coloridas, fotos amareladas pelo tempo, ingressos de cinema, resenhas literárias nunca lidas, canetas sem tinta, enfim, tudo que lhe fizesse lembrar os resquícios de vida. Numa tentativa de auto-engodo: disfarçar pra si mesma a vida insossa que levava... Até que, no dia da assepsia interior, jogava tudo fora, na lixeira dos recicláveis, como se assim, feita a limpeza, se reciclasse também.

16:45

...

Postado por Priscila Milanez |

Sim, estou cinza por esses dias, menino... As olheiras que carrego revelam-te mais do que a acidez das noites insones. Revelam a cor cinza dos meus dias. Nem ao cinema tenho ido mais. A minha falta de graça, menino, é cansaço.

Hoje, me desmancharia lânguida em teus braços como quem se desmancha na cama, tomada pelo fastio. Hoje, te beijaria como quem pede fôlego para permanecer por horas num mergulho profundo de sono e calma. Hoje, te tocaria as mãos como quem molda sutil e despretensiosa o barro úmido da terra. Meus olhos iriam cambalear de sono e encanto sobre você, como cambaleia o meu corpo inteiro quando te beijo suave.

10:53

Espirais

Postado por Priscila Milanez |

Nas voltas dessas espirais te encontro e desencontro. Tudo é movimento. Espirais que nos seus giros caleidoscópicos percorro, percorro e volto quase sempre ao mesmo lugar, que não é sempre o mesmo. Danço em desarmonia com o movimento rotatório desarticulado dessas espirais que me embaralham e confundem. Tudo é movimento.

Uma espiral em falso e lá estou eu, presa a um nó indecifrável e intempestivo. Mas, tudo é movimento e nele rodopio, faço drama, choro, faço graça e rio. Então, me desprendo e, novamente, me perco nas espirais infindas deste desejo.

13:45

céu, vinil, sono e sonho

Postado por Priscila Milanez |

Para Heyk

E ele disse sobre um céu de brasa, sobre um vinil que cambaleava, sobre o sono e o sonho. Disse também de um amor sem asa e da roda gigante... Disse muita coisa em poucas letras. E, como quem pinta sobre borrões de tinta pincelados por mãos alheias, ela disse:

Para ser menos amargo, o “céu de brasa”, que arde nos olhos e queima a pele, deveria ser mais belo do que quente – se conservaria a cor crepuscular, secar-se-ia o suor que escorre da face como gotas de fastio; o sono deveria ser menos importuno no correr moroso das horas inexatas de um dia de pedra; e o sonho... bom, este tem seu lugar na interface do querer e do quase-possível.

Eu quis que a vitrola, que cá guardo comigo com a asa quebrada, se reabilitasse para que eu pudesse nela ver um vinil cambalear dançante na cadência de uma música que no seu giro me envolvesse. E com a imagem do vinil cambaleante ouviria o chiado poético que só as vitrolas sabem compor, sem verso, sem rima e letra...

“Amor sem asa” sobrevive?

O que ficou daquele texto amargo, tingido de cinza, para além do que me escapa, foi a vontade imensa de riscar o céu com o dedo, do ponto mais alto da roda gigante, que para ele, “é só um jeito antigo de tocar o céu”.


(Entre aspas trechos do texto “De dentro” do Heik Pimenta: http://beijodesal.blogspot.com/2008_02_01_archive.html)

09:55

Noites amenas de quase-inverno

Postado por Priscila Milanez |

Uma varanda nas noites amenas de quase-inverno (aqui, quase tudo finda no quase), o chá de cidreira quente, a xícara de alça quebrada e a caneca amarela – lembro bem. O aroma do chá fundindo-se à fumaça do incenso de hortelã que, em espirais de coloridos invisíveis, dançava sobre eixos rotatórios indefinidos em meio a brisa suave da noite ressequida pelo tempo e pela frieza dos olhos ressequidos dos outros. A cortina bailando. O cinzeiro recolhendo as cinzas da melancolia ou da alegria perdida em algum canto daquela sala pequena, colorida pela composição aleatória e exata de livros, filmes e discos espalhados. Na vitrola, alguma música pulsando na cadência das palavras trocadas. Nos olhos, o tom da cumplicidade. E no sorriso, o afeto triste revelado.
O que restou foi a saudade estanque no peito. A fisgada amenizada pela lembrança deste cenário, que mais parece extraído de um filme em película, cuja fotografia carregada cores fortes e vibrantes – tal qual o contraste harmonioso do verde e do vermelho - parece antiga.

20:01

Havia dança...

Postado por Priscila Milanez |



Havia dança na densidade demasiada dos seus atos desmedidos. Descuidava-se do tom da sua voz que se erguia em sua delicadeza sonora, atravessando o vão da estante, encontrando eco no vazio do restante da casa, rebatendo nas paredes brancas da extensa sala e ali se estancava. Ria um riso frouxo e largo. Sinalizando o despautério da falta de graça que via em si e nos que a cercavam. Esmiuçava com olhar tudo o que sendo imagem poderia revelar-se mais do que mera imagem. Não lhe era aprazível ao paladar o gosto do que lhe parecia excessivamente superficial aos olhos.
Jogava com os argumentos alheios para convencer a si mesma do que já se dizia convencida. Cambaleava no bailado das palavras que pronunciava e ouvia, e perdia-se no compasso do seu próprio silêncio. Excedia-se continua e constantemente no riso e no lamento, na fúria e na delicadeza, no desejo e na aversão, no querer e no hesitar, no sentir e na dúvida, no findar e no recomeço do que ainda não tinha sequer terminado. Nunca terminava.

Travava lutas homéricas em si e por si em nome do que ainda nem sabia ao certo o que era. Fugidia, aos outros pouco permitia. Absorvia pra si - como um pano suga a bebida amarga derramada numa mesa - sua intensidade desmesurada, que, às vezes, por descuido ou afeição deixava respingar nos outros. E, a partir deste instante, alguns a amavam ainda mais, outros optavam em se manter à distância exata da não-intimidade. E com estes, mais do que com àqueles, ela sabia dosar como que com um conta-gotas a porção exata de afeto e desafeto. Com àqueles nunca sabia medir a intensidade e, por isso, lhes negava o acesso à intimidade. Com esta não sabia lidar. Escorregava-lhe das mãos como um bibelô de porcelana pequeno, caro e raro.

Não gostava de enredos lineares e acabados. Com o olhar preferia percorrer páginas cobertas da tinta poética dos sentires dúbios e difusos. Inversamente, buscava com ardor a leveza.Talvez, o erro estivesse contido no ardor com que a buscava. Leveza se busca com leveza, talvez. E a leveza estava no seu canto ainda não esculpido. Era nele que sua dança encontrava a cadência em que podia se lançar e ser leve.


(foto: Maria Flores : www.olhares.com/mariaflores)